21 janeiro 2007

sobre as fotos de arquiteturas

Hoje voltei a pensar sobre como se mostra a arquitetura. Mais precisamente, como são tiradas as fotos de arquitetura. Sempre edifícios vazios, limpos ao redor, ninguém parado ou passando, nem uma folha de árvore fora do lugar. Uma vez tive uma experiência que me fez perceber a importância de se mostrar os lugares sendo ocupados, ou melhor, utilizados nas fotos.
Na disciplina paisagismo-1, no curso de arquitetura e urbanismo na UFES, houve um trabalho o qual deveríamos escolher um projeto paisagístico de uma praça ou parque, e apresentar uma análise sobre este ao restante da turma. Escolhemos o Parc de la Solidaritat, em Prat de Llobregat (Barcelona-Espanha), dos arquitetos Sergi Godia e Xavier Casas. Durante a apresentação, as imagens obtidas na internet mostravam espaços ensolarados, taludes gramados, e pouca densidade de árvores e elementos sombreadores, sendo que não se tratava apenas de o parque ser novo, e, portanto, as árvores ainda iriam crescer, não, ele estava concluído como previa o projeto. Antes de continuar a mostrar as imagens na apresentação do trabalho, o professor e alguns colegas indagaram sobre esse fato, afinal, a avaliação do nosso grupo foi favorável, e não percebeu naquela época inadequações de nenhum tipo (considerando o fato de nunca termos visitado pessoalmente o parque). O esclarecimento da dúvida se deu a partir das próprias imagens que se seguiriam. Numa rápida consulta ao site da cidade em questão, descobrimos que a temperatura média anual é de 16ºC, e a variação anual é em torno de 11º a 20ºC, não passando disso, o que logo explicamos. As imagens que se seguiram mostravam pessoas caminhando, ciclistas, crianças brincando no taludes, todos bastante agasalhados apesar do sol aparentemente escaldante. Nesse momento ouviu-se alguns “ah’s” e viu-se expressões um pouco aliviadas. Entre as fotos “limpas” e as fotos com pessoas, mostrando usos, as que melhor demonstraram o caráter do parque foram essas últimas.
A arquitetura não existe sem as pessoas que a utilizam, e mostrá-la como um objeto intocado faz perder a noção de algumas dimensões pertinentes à percepção e à formação de opinião em relação à obra. Pode distorcer os valores, as referências.

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