23 janeiro 2007

amar

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira - “Estrela da Vida Inteira”


Mas e se o homem não é só amor, a falta de amor, a falta de liberdade para amar plenamente, ou não é a falta de liberdade, mas a própria liberdade que assusta? Lembrei Carlos Drummond de Andrade, mas será que as criaturas sabem disso? Quero ser livre para amar, desamar, malamar, amar e esquecer, amar o amor e a falta de amor, e assim viver sem sofrer, mas seria isso possível? Amar implica confiar pra não sofrer, desconfiar implica abalar o amor, amor amigo, amor paixão, desconfiar é falta de amor, a si mesmo, e ao outro, é medo de sofrer, é querer controlar o que está além do controle, é deixar de viver plenamente. Mas às vezes sente-se falta, sente-se necessidade, e isso se confunde com querer controlar, e essa confusão surge da falta de amor, se tudo for mesmo amor. Indiferença é então falta de amor, e às vezes tudo parece indiferença, isso dói, confunde, e a ansiedade de não sentir o amor cria mais desamor. Quero ser livre da indiferença e do desamor.


AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

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