Sexta – 04/05/01
Entre quatro e cinco da tarde de hoje, vi uma cena que me lembrou os livrinhos coloridos com poemas de Cecília Meireles que eu costumava ler quando era criança: mãe, filha e cachorrinho parados em frente a uma loja, se esforçando para enxergar o que havia por trás da vitrine, vitrine essa que só mostrava o reflexo do que acontecia na rua. A filha parecia uma miniatura da mãe, e o cachorrinho, sentado na calçada com a língua de fora, totalmente alheio à dificuldade das duas, parecia satisfeito com a paradinha pra descanso e até fechava os olhinhos quando o vento soprava mais forte.
...
À noite comemoramos o aniversário de minha mãe em casa. Eram 14 pessoas reunidas na nossa pequena sala e, apesar disso, não me lembro de uma festa de família divertida assim desde quando eu era criança. Os risos, as manifestações de indignação com a situação da política no país, as cores e os cheiros das comidas preparadas especialmente para a ocasião, tudo concentrado na pequena sala do meu apartamento.
Sábado – 05/05/01
Fui ao supermercado com minha mãe. O barulho das pessoas, dos carrinhos, dos computadores registrando os preços, os avisos de promoções, as crianças fazendo pirraça porque a mãe se recusa a comprar o iogurte com tema de desenho animado da moda, todas as cores e cheiros se confundindo. De repente uma travessa de vidro mal acomodada cai da última prateleira, bem no meio de um dos corredores centrais. Quebra, mas não em mil pedacinhos. Todos de todas as seções do supermercado ouvem e gritam êê!, ôô!, enquanto que minha mãe, ao meu lado no caixa, diz: _Não se despedaçou em mil pedaços, é Duralex!
...
Fim de feira livre, só me lembra do cheiro do peixe. Coincidentemente passo sempre pelas barracas de peixe no final da feira. As ruas desniveladas acomodam poças de água, do gelo que conservava os peixes e que derreteu. Já se foram os burburinhos das pessoas, as cores da feira. Só restam os barulhos das caixas vazias sendo guardadas nas caminhonetes, as barracas sendo desmontadas, o cheiro de peixe no meu pé direito. Pisei sem querer na poça de água de peixe acomodada no afundamento do asfalto com o meu pé direito.
Domingo – 06/05/01
Há mais ou menos quatro anos eu me abaixo pra minha imagem ‘caber’ no espelho do banheiro. Ele é baixo o suficiente para ‘cortar fora’ a minha testa. A cabeça não me deixa lembrar de subir uns 10cm o prego em que ele está pendurado. Eu não precisaria mais abaixar, talvez as dores que sinto de vez em quando nas costas diminuiriam. Isso tudo só porque eu esqueço de aumentar a altura de um espelho respingado de pasta de dentes há mais ou menos quatro anos.
...
À tarde, quando fui lavar meus chinelos, mais uma vez impliquei com a altura (ou falta dela) de uma coisa: o tanque. O velho tanque branco amarelado quase me dá um nó nas costas, eu, derrotada por um objeto inanimado que, quando não está sendo usado, só serve de suporte de sabão. O problema é que essa situação não pode ser consertada tão facilmente quanto a do espelho. Fazer o quê?
Segunda – 07/05/01
Início do trote de arquitetura e urbanismo. O barulho dos veteranos no corredor minutos antes da nossa aula acabar só aumentava o suspense. A nossa sala era a última do corredor e na frente da porta havia uma parede cuja única função no momento parecia ser a de ecoar e amplificar os sons das conversas e das gargalhadas dos veteranos. Finalmente a aula acaba e eles invadem a sala. De repente todos os calouros estão pintados. O cheiro da tinta e a irritação provocada na pele durante sua secagem, os risos de alívio pelo primeiro dia de trote não passar disso.
...
Crianças brincam no parquinho da pracinha. O ambiente contribui para a descontração de todos que se encontram lá. Os brinquedos coloridos, a liberdade de pisar com pés descalços na areia sem se preocupar com nada. Babás, mães e avós aproveitam para pôr a conversa em dia. Enquanto isso o mundo de obrigações continua: pessoas fazendo compras no quilão, alunos barulhentos na escola em frente, gente no ponto de ônibus esperando para ir pra casa ou para o trabalho. Tudo isso ao redor da mesma pracinha onde crianças despreocupadas e alheias ao resto do mundo brincam.
Terça – 08/05/01
Almocei pela primeira vez no RU. Muitos me disseram que a comida era ruim, mas os cheiros, apesar de misturados, não desagradaram meu olfato. A sobremesa era um pudim branco com uma quantidade mínima de calda caramelada, quase insuficiente. O barulho das bandejas sendo limpas nas cozinhas, as conversas, o toque de um celular, tudo contribuiu pra distrair minha atenção. Foi aí que o veterano roubou o meu pudim.
...
Quando estava indo para o encontro de Crisma hoje à noite, vi três pessoas com deficiências físicas na mesma rua, quase que em frente ao mesmo quarteirão. A rua, meio escurecida pelas árvores, não era tão movimentada, mas as calçadas esburacadas e desniveladas os atrapalhava razoavelmente. Nessa hora eu pensei em como a cidade parece estar contra eles.
Quarta – 09/05/01
Manhã de sol, brisa fresca, lojas começando a abrir, tudo isso visto da janela de um ônibus com cheiro de praia. Um cheiro de protetor solar misturado com o de mar e areia, isso concentrado dentro do ônibus. Mesmo com o vento circulando, entrando e saindo pelas janelas, o cheiro permanecia. Cheiro que se perderia ao ar livre. Quando veio a vontade de ir à praia, meu ponto de descida chegou e eu tive que ignorar essa idéia. Era dia de aula.
...
Hoje à noite me deu uma vontade de ficar na varanda, deitada numa rede talvez, olhando o céu e o movimento da rua em que moro. Só há um problema: meu apartamento não tem varanda. Deveria haver uma lei contra apartamentos sem varandas. A falta de um lugar mais ou menos aberto, como uma varanda, aumenta o estresse dos moradores de apartamentos. Não há pesquisas científicas que comprovem isso (pelo menos não que eu conheça), mas é por experiência própria e observação de outras pessoas que mantenho firme a minha opinião. Abaixo os projetos de edifícios residenciais sem varandas!
Quinta – 10/05/01
Continuação do trote: todo mundo vestido de roxo com toucas de banho na cabeça, cantando musiquinhas bobinhas. Passear ao ar livre de mãos dadas, além do centro de artes, foi uma grande pagação de mico, mas foi divertido. O fato de a gente ter ido além do centro de artes fez com que mais pessoas, de todos os cursos e períodos nos vissem daquele jeito. Ainda bem que estranhos esquecem esse tipo de coisa logo.
...
Ainda na UFES, nós (alguns calouros de arquitetura) fomos pra uma mesinha, daquelas que ficam nos gramados em frente ao RU, pôr em dia as matérias estudadas até então. Nesse momento eu percebi que a minha cabeça funciona muito melhor e meus estudos rendem mais ao ar livre do que em uma sala com ar condicionado e paredes brancas me encarando. A brisa, as cores da paisagem, o leve sol de começo de fim de tarde, os passarinhos, soa meio piegas, mas a verdade é que funciona.
Sexta – 11/05/01
Enquanto lia umas anotações que fiz nas férias, voltei a me indignar com a situação da praia de Camburi. Uma praia linda, cheia de placas vermelhas (no mínimo de vergonha) demarcando áreas impróprias para banho. Na areia tampinhas de garrafa, plásticos papéis de bala, restos de comida, descaso total. Quase que o ambiente me deixou de mau humor.
...
Quando estava indo pra UFES de manhã, passando por uma calçada estreita, uma senhora aproximou seu carro dessa calçada rapidamente para estacioná-lo mais à frente, passando por uma poça d’água e me dando um ‘banho’. Tentei escapar da pequena onda, mas a calçada era muito estreita. Pressionada contra o portão de uma garagem, não me restou outra opção além de voltar pra casa pra me limpar e correr de volta pra UFES pra não perder aula.
Entre quatro e cinco da tarde de hoje, vi uma cena que me lembrou os livrinhos coloridos com poemas de Cecília Meireles que eu costumava ler quando era criança: mãe, filha e cachorrinho parados em frente a uma loja, se esforçando para enxergar o que havia por trás da vitrine, vitrine essa que só mostrava o reflexo do que acontecia na rua. A filha parecia uma miniatura da mãe, e o cachorrinho, sentado na calçada com a língua de fora, totalmente alheio à dificuldade das duas, parecia satisfeito com a paradinha pra descanso e até fechava os olhinhos quando o vento soprava mais forte.
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À noite comemoramos o aniversário de minha mãe em casa. Eram 14 pessoas reunidas na nossa pequena sala e, apesar disso, não me lembro de uma festa de família divertida assim desde quando eu era criança. Os risos, as manifestações de indignação com a situação da política no país, as cores e os cheiros das comidas preparadas especialmente para a ocasião, tudo concentrado na pequena sala do meu apartamento.
Sábado – 05/05/01
Fui ao supermercado com minha mãe. O barulho das pessoas, dos carrinhos, dos computadores registrando os preços, os avisos de promoções, as crianças fazendo pirraça porque a mãe se recusa a comprar o iogurte com tema de desenho animado da moda, todas as cores e cheiros se confundindo. De repente uma travessa de vidro mal acomodada cai da última prateleira, bem no meio de um dos corredores centrais. Quebra, mas não em mil pedacinhos. Todos de todas as seções do supermercado ouvem e gritam êê!, ôô!, enquanto que minha mãe, ao meu lado no caixa, diz: _Não se despedaçou em mil pedaços, é Duralex!
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Fim de feira livre, só me lembra do cheiro do peixe. Coincidentemente passo sempre pelas barracas de peixe no final da feira. As ruas desniveladas acomodam poças de água, do gelo que conservava os peixes e que derreteu. Já se foram os burburinhos das pessoas, as cores da feira. Só restam os barulhos das caixas vazias sendo guardadas nas caminhonetes, as barracas sendo desmontadas, o cheiro de peixe no meu pé direito. Pisei sem querer na poça de água de peixe acomodada no afundamento do asfalto com o meu pé direito.
Domingo – 06/05/01
Há mais ou menos quatro anos eu me abaixo pra minha imagem ‘caber’ no espelho do banheiro. Ele é baixo o suficiente para ‘cortar fora’ a minha testa. A cabeça não me deixa lembrar de subir uns 10cm o prego em que ele está pendurado. Eu não precisaria mais abaixar, talvez as dores que sinto de vez em quando nas costas diminuiriam. Isso tudo só porque eu esqueço de aumentar a altura de um espelho respingado de pasta de dentes há mais ou menos quatro anos.
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À tarde, quando fui lavar meus chinelos, mais uma vez impliquei com a altura (ou falta dela) de uma coisa: o tanque. O velho tanque branco amarelado quase me dá um nó nas costas, eu, derrotada por um objeto inanimado que, quando não está sendo usado, só serve de suporte de sabão. O problema é que essa situação não pode ser consertada tão facilmente quanto a do espelho. Fazer o quê?
Segunda – 07/05/01
Início do trote de arquitetura e urbanismo. O barulho dos veteranos no corredor minutos antes da nossa aula acabar só aumentava o suspense. A nossa sala era a última do corredor e na frente da porta havia uma parede cuja única função no momento parecia ser a de ecoar e amplificar os sons das conversas e das gargalhadas dos veteranos. Finalmente a aula acaba e eles invadem a sala. De repente todos os calouros estão pintados. O cheiro da tinta e a irritação provocada na pele durante sua secagem, os risos de alívio pelo primeiro dia de trote não passar disso.
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Crianças brincam no parquinho da pracinha. O ambiente contribui para a descontração de todos que se encontram lá. Os brinquedos coloridos, a liberdade de pisar com pés descalços na areia sem se preocupar com nada. Babás, mães e avós aproveitam para pôr a conversa em dia. Enquanto isso o mundo de obrigações continua: pessoas fazendo compras no quilão, alunos barulhentos na escola em frente, gente no ponto de ônibus esperando para ir pra casa ou para o trabalho. Tudo isso ao redor da mesma pracinha onde crianças despreocupadas e alheias ao resto do mundo brincam.
Terça – 08/05/01
Almocei pela primeira vez no RU. Muitos me disseram que a comida era ruim, mas os cheiros, apesar de misturados, não desagradaram meu olfato. A sobremesa era um pudim branco com uma quantidade mínima de calda caramelada, quase insuficiente. O barulho das bandejas sendo limpas nas cozinhas, as conversas, o toque de um celular, tudo contribuiu pra distrair minha atenção. Foi aí que o veterano roubou o meu pudim.
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Quando estava indo para o encontro de Crisma hoje à noite, vi três pessoas com deficiências físicas na mesma rua, quase que em frente ao mesmo quarteirão. A rua, meio escurecida pelas árvores, não era tão movimentada, mas as calçadas esburacadas e desniveladas os atrapalhava razoavelmente. Nessa hora eu pensei em como a cidade parece estar contra eles.
Quarta – 09/05/01
Manhã de sol, brisa fresca, lojas começando a abrir, tudo isso visto da janela de um ônibus com cheiro de praia. Um cheiro de protetor solar misturado com o de mar e areia, isso concentrado dentro do ônibus. Mesmo com o vento circulando, entrando e saindo pelas janelas, o cheiro permanecia. Cheiro que se perderia ao ar livre. Quando veio a vontade de ir à praia, meu ponto de descida chegou e eu tive que ignorar essa idéia. Era dia de aula.
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Hoje à noite me deu uma vontade de ficar na varanda, deitada numa rede talvez, olhando o céu e o movimento da rua em que moro. Só há um problema: meu apartamento não tem varanda. Deveria haver uma lei contra apartamentos sem varandas. A falta de um lugar mais ou menos aberto, como uma varanda, aumenta o estresse dos moradores de apartamentos. Não há pesquisas científicas que comprovem isso (pelo menos não que eu conheça), mas é por experiência própria e observação de outras pessoas que mantenho firme a minha opinião. Abaixo os projetos de edifícios residenciais sem varandas!
Quinta – 10/05/01
Continuação do trote: todo mundo vestido de roxo com toucas de banho na cabeça, cantando musiquinhas bobinhas. Passear ao ar livre de mãos dadas, além do centro de artes, foi uma grande pagação de mico, mas foi divertido. O fato de a gente ter ido além do centro de artes fez com que mais pessoas, de todos os cursos e períodos nos vissem daquele jeito. Ainda bem que estranhos esquecem esse tipo de coisa logo.
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Ainda na UFES, nós (alguns calouros de arquitetura) fomos pra uma mesinha, daquelas que ficam nos gramados em frente ao RU, pôr em dia as matérias estudadas até então. Nesse momento eu percebi que a minha cabeça funciona muito melhor e meus estudos rendem mais ao ar livre do que em uma sala com ar condicionado e paredes brancas me encarando. A brisa, as cores da paisagem, o leve sol de começo de fim de tarde, os passarinhos, soa meio piegas, mas a verdade é que funciona.
Sexta – 11/05/01
Enquanto lia umas anotações que fiz nas férias, voltei a me indignar com a situação da praia de Camburi. Uma praia linda, cheia de placas vermelhas (no mínimo de vergonha) demarcando áreas impróprias para banho. Na areia tampinhas de garrafa, plásticos papéis de bala, restos de comida, descaso total. Quase que o ambiente me deixou de mau humor.
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Quando estava indo pra UFES de manhã, passando por uma calçada estreita, uma senhora aproximou seu carro dessa calçada rapidamente para estacioná-lo mais à frente, passando por uma poça d’água e me dando um ‘banho’. Tentei escapar da pequena onda, mas a calçada era muito estreita. Pressionada contra o portão de uma garagem, não me restou outra opção além de voltar pra casa pra me limpar e correr de volta pra UFES pra não perder aula.
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