Escrever sobre perceber. Difícil num primeiro momento é extrair todo o redemoinho de sensações, ideias, opiniões, desejos, sem simplesmente fazer uma enumeração de palavras. Sempre quis escrever, e há algum tempo me sinto massacrada por algo, saturada, como se qualquer atividade intelectual, por mais simples que fosse, preencheria a última gota de espaço livre necessário ao giro das engrenagens. Não sei o porquê disso, o porquê dessa sensação de que só o movimento do corpo, o contato direto com a natureza, com o vento, a água, o quente, o gelado, os sons dos elementos naturais se encontrando seria capaz de reverter esse estado. Sinto uma urgência de me sentir viva, e de interagir com o mundo. Sinto a angústia de passar o tempo correndo contra o tempo para realizar tarefas burocráticas, completamente desconfortável em relação à minha mesa, à minha cadeira, à minha posição na sala de trabalho. Vontade de ter o dia para fazer algo diferente, diferente das obrigações, para sentir o distanciamento das obrigações sufocantes, e permitir a insurgência das essências dos fenômenos realmente importantes. Deixar estar, permitir, sentir. Escancarar as portas da percepção, sem tanta correria contra o tempo, correria inútil e improdutiva. Quero ler, o que eu quiser, e escrever, sobre o que eu sentir, sobre o que eu percebo, sobre os meus desejos, sobre o futuro, sobre os sonhos quase perdidos, e sobre as crenças refeitas. Quero traços, cores e formas. Quero experimentar, comer e cozinhar. Quero nadar, e sentir o sol e a chuva, sentir o frio na pele das mudanças de estação. Quero dar conta das minhas emoções.
Nenhum comentário:
Postar um comentário